You’ll never
Posted: May 22, 2012 Filed under: Textos Leave a comment »Estar sempre certa é muito cansativo. Eu que não quero mais nem um segundo dessa militância. O que eu quero mesmo é estar errada. Eu quero o troféu de pessoa mais errada, de louca, da louca das regras irracionais. Eu que não faço mais questão por estar certa em comunidade. Cansei de achar que os outros é que são egoístas, prefiro assumir que eu é que não largo o osso das minhas convicções. Estou tão errada que nem sei por onde começar. Um pacote completo de péssimas combinações. Tenho um caráter insuportável, nem faço mais questão de esconder. Sou antiquada, mal humorada, possuo manias incorrigíveis, sou carente, mimada, medíocre, frustrada, megalomaníaca. Sou uma chata. Não me ame, me deixe, não sofra, não tente, não chore, não force, não queira entender. Eu mesma não quero saber de mais nada.
GIG – JPA
Posted: May 14, 2012 Filed under: Textos Leave a comment »Está frio hoje, lá fora, mas principalmente aqui dentro.
Faltou aquela luz que deixa tudo bonito
e ainda mais aquela vontade de começar cedo a existir,
tipo 6 da manhã.
Tudo já tão intenso às 7,
o sol já queimando forte às 9,
chega meio dia e nada mais é do quê exatamente o meio do dia.
Lindo. Mas não aqui.
Aqui mal bateu o sol,
desconfio que nunca irá.
Aqui já se foram 7 anos.
Daqui eu não vi os prédios subirem,
as ruas mudarem o sentido,
o mar ficar impróprio,
minha cadela se acalmar,
minha mãe ficar loura,
daqui mal vejo meu irmão casar.
Hoje está frio,
tem um trabalho por fazer,
uma casa para voltar,
a lista para retomar.
A única coisa que não tem, ou faz, é sentido.
Mas, tudo bem.
Amanhã pode fazer sol,
aí, quem sabe?
Ar
Posted: May 7, 2012 Filed under: Textos 2 Comments »Quero escrever como quem tira o fim de tarde para caminhar na estrada atrás de casa, aquela silenciosa, onde só se vê cachorros e senhoras em busca do pão, ou crianças suadas que chegam da escola em busca de aventuras e do entardecer.
Quero que as palavras não precisem ser ditas, quero tempo para você imaginar, quero que você imagine. Quero eu mesma escrever imaginando e, por isso, deixando de fora todo o supérfluo.
Quero minimizar o esforço.
Quero escrever como quem respira, quero que você me leia como quem vive, tirando suas próprias conclusões. Quero que você escreva por mim, lendo cada linha como se fosse exclusivamente sua.
Quero escrever como quem tem saudade, como quem ama, como quem sofre, como quem não liga para nada, como quem quer morrer, como quem está excitado, como quem está concentrado, como quem medita, quero escrever como quem tem muita fome, como quem não tem fome de nada, como quem está apático, empático, como a terra gira, como as plantas nascem, como o amor surge.
Quero escrever como quem não precisa.
2 de maio
Posted: May 2, 2012 Filed under: Textos Leave a comment »Brincava de fechar os olhos toda vez que passávamos em lugares de muito sol. A água refletia a luz com aquele brilho próprio, que, desconfio, ser pertinente apenas às primeiras horas da manhã, e os jardineiros aparavam a grama, fazendo com que o combo cheiro de verde + céu azul + água convidativa me levassem para aquele lugar mágico da nostalgia. Depois de 3 décadas sentindo saudade de algo sem nome, já consigo encarar com respeito o buraco que existe no meu coração. Se eu acreditasse em Deus, desconfio que seria dele esse vão. Por vezes tento me prender a uma força maior, mas penso que sou cínica demais, maliciosa demais e sincera demais para não me colocar no centro de tudo. O centro da Baía de Guanabara, o centro da minha criatividade em ver o sertão em toda parte, o centro das minhas desculpas para não me deixar levar pelo medo de fracassar, o centro do meu útero, que uma hora será preenchido por algo que vai tirar tudo que sei de mim mesma, o centro da minha saudade de uma casa que não está mais em lugar algum e, por isso mesmo, pode estar em toda parte.
Sans Soleil
Posted: April 25, 2012 Filed under: Textos Leave a comment »Às vezes parece ser a hora certa, aquela que faz começar qualquer coisa que precise ser começada. Como o dia, que se inicia com o banho a ser tomado, depois um pouco de gérmen para sair com mais facilidade, o chá para o metabolismo, os beijos e a música para a casa ficar mais mansa.
As informações mais desejadas nem sempre são as que deveriam existir. Mesmo assim eu sigo lendo um pouco sobre a nova temporada de alguma série e outro tanto sobre a astrologia.
Ando pensando muito no aspirador de pó que eu preciso consertar e anoto toda semana, em postits coloridos, os objetivos do período.
Passaporte;
Declaração do imposto de renda;
Dentista.
Nunca me esqueço das pessoas, principalmente das que se foram. Nunca me esqueço das que estão por perto também, mesmo que eu prefira quando elas estão afastadas.
Todo dia, no meio do dia, tenho esses insights pontuais de felicidade. Nada de mais, nada grandioso, nada que justifique tantas borboletas frenéticas durante todos os anos passados.
A felicidade é uma coisa simples e eu nem sempre me lembro disso. Mas ainda bem que posso contar com os insights pontuais no meio do dia.
Sol em áries
Posted: April 2, 2012 Filed under: Textos 3 Comments »Acordei com a barriga roncando, os ossinhos da bacia se mostrando e com a camisola enrolada quase na altura dos meus seios. Enquanto me espreguiçava dando bom dia para o sábado de sol, por alguns momentos me senti magra, me senti como alguém que nunca teve um segundo sequer de insegurança ou insatisfação com o próprio corpo, senti um estranho prazer, talvez excitação, por ser aquela a usar uma calcinha rosa com ossos protuberantes. Sigo o ritual de sempre para começar o dia, como prender o cabelo para trás, tomar meio litro de água e atrapalhar você, no que quer que você esteja fazendo. Geralmente você medita, faz yoga, assiste lutas do UFC, contradizendo todo e qualquer padrão, contradizendo todas as pessoas chatas, mostrando para mim, momento após momento, dia após dia, o porquê de eu te amar. Eu, que detesto os bobos, os que não têm maleabilidade, os vegans, os radicais e os que gostam de se dizer artistas ou intelectuais, sinto cada dia mais orgulho por ser eu mesma; um pouco do sertão, um pouco da praia, um pouco meus pais, um poucos os astros, um pouco você, e, portanto, ninguém.
Crônica de uma noite de outono
Posted: March 29, 2012 Filed under: Textos 1 Comment »Peço uma garrafa de vinho em um bistrô perto do metrô enquanto te espero vir de longe.
Provavelmente chegarás molhado, pois chove, e enquanto observo os casais, penso no que podem estar pensando também de mim, que balanço a sapatilha verde fora dos pés, igual criança despreocupada, e tenho um livro em cima da mesa que não consegui ler, com o qual tentei disfarçar a solidão e a espera.
Entre um gole e outro de um superfaturado malbec (bem sabes que gosto dos fortes), me concentro em me desconcentrar para ouvir melhor os dois velhinhos ao meu lado. Pensei ter roubado o momento em que eles mostrariam que se amam, aquele momento típico dos casais que precisam sair de casa para se reconectarem à parte dos filhos, dos gatos, da cama em comum. Mas eles estavam rindo de mim, a jovem pretensiosa que bebe sozinha com um livro sobre a mesa, e dos meus anéis, muitos anéis. Vi que comeram pão na chapa e tomaram café com leite como boas pessoas que cansaram de estar bêbadas, e esse lanche noturno me encheu de ternura, tanta ternura que pensei imediatamente em Manaíra, nas noites de chuva que passei dormindo no lado da cama que vovó ocupava, naquela casa escura cheia de fantasmas da minha infância.
A mulher liga para a filha que não atende e ela, então, deixa uma mensagem carinhosa, tudo isso enquanto trocava olhares de cumplicidade com o pai daquela jovem que ainda ignora seus progenitores do outro lado da linha.
Disfarço a lágrima aflita olhando para baixo, fingindo uma coceira na canela, quando te vejo entrando pelo corredor, sempre atrasado, sempre indiferente às pequenas regras de educação que, se você soubesse serem da delicadeza, jamais infligiria.
Poema (1)
Posted: March 20, 2012 Filed under: Textos Leave a comment »O pior é quando você,
entre a meditação e o vídeo de algum yogue
indiano que cruza as pernas
tal qual criança, finge não me escutar
e me ignora mais ainda
enquanto eu, puramente infantil,
chamo você, e chamo e chamo
e chamo até você se virar meio chateado
meio grosso, meio de saco cheio
meio sem querer me ver nunca mais
só para me ouvir dizer que “nada não”.
Porque eu tenho essa urgência
em te ter só para mim, exclusivo
e atento, sempre à disposição
dos meus humores e caprichos
e simplesmente não aguento te dividir
com o computador,
com a yoga,
com os livros,
com a evolução ou
com a iluminação.
existe beleza no que é feio
Posted: February 28, 2012 Filed under: Textos Leave a comment »O sonho da vida burguesa, eis o terminal de encontro de todos os desejos. É um local surpreendente, pelo aspecto de surpresa mesmo, que causa em todo mundo que chega ali; talvez e principalmente, nos que renegavam a vida calma e simples, de carnês de prestações e roupas compradas em grandes magazines. A vida pacata dos que não guardam dinheiro, pagam mensalidade escolar, carro. A existência medíocre e feliz daqueles que se apertam em 2 quartos onde deveria ser apenas 1.
Todos aqueles cabeludos e meninas existencialistas e também os artistas e os preguiçosos e os idealistas e os proteladores, irão esticar o braço um dia, na avenida dos desesperados, e no lugar de uma carona, fantasia dos road movies, irão ganhar vento na cara, dos coletivos que não vão parar.
O tempo, esse gaiato intransigente, só anda para frente. Não existe redenção com esse camarada. Então, anda-se a pé. Segue-se com os próprios pés entre canteiros desmatados e animais selvagens que se escondem nos arbustos enegrecidos de fuligem e outros seres embrutecidos pela desilusão. Foge-se da velocidade dos outros que querem chegar em primeiro lugar e o que resta é se disfarçar de humildade e descaso, tentando garantir algum lugar que seja.
Todas as luzes da cidade, todas as paredes descascadas, todos os gritos de prazer e todo o sexo feito para aliviar o vazio, a dor, a ansiedade, o desejo de reprodução, todos os insights e toda a ilusão de achar que se faz parte de algo. Todo o amor que a gente não sabe por que sente, entranhado nas nossas veias, a superação da mágoa e o dia seguinte.
Acordar para quê?
avante homens! é tempo de amor
Posted: February 24, 2012 Filed under: Textos 1 Comment »O peito dói quando esfria. Dói fino, apertando o mamilo, e dói também leve, sem densidade, como se a dor fosse um fantasma. São os hormônios, eu digo para mim mesma. A TPM que a pílula nunca aplacou, é o ovário Ruth ou Raquel.
Anos tentando apenas viver em um mundo justo. Não pedi paz, não pedi igualdade. Tudo que eu sempre quis foi a justiça, o dever de todo mundo exercer o bom senso na hora de analisar os fatos e o direito de uma boa conversa solucionadora.
Eu abro o vidro do carro, na madrugado do Rio de Janeiro, só para sentir o cheiro da casa que me abriga há 7 anos. Não deveria parecer novo, mas é. É lindo, mas não é meu. Tudo que eu penso enquanto cruzo a praia de botafogo é nas árvores. Lindas, tão lindas. Um dia todas elas estavam fazendo parte de um grupo. Talvez tivessem mãe, pai, tia, primos. Quem pode dizer? Agora estão sozinhas, resistentes ao próprio destino. Lindas, rebeldes, solitárias. Um dia havia algo ali, na distancia que hoje comporta um bicicletário. Talvez a irmã querida, ou o irmão amado. Talvez o pai, um tio próximo. Talvez a mãe. Eram tantas e agora ela estão sozinhas, entre uma estação e outra. Entre uma distância e outra, para que você pedale à vontade, ela tiveram a permissão de viver, porque foram bonitas o suficiente para merecerem ser canteiros.
Aí eu chorei pelas árvores solitárias e pelo mundo, por pinheirinho, lá em São Paulo, pela violência de todos os lugares, da mata, de Salvador, dos índios antes da gente. Mas o que tira meu fôlego e dá esse nó no meu estômago é a injustiça emocional. A fragilidade do amor. De como um irmão deixa de falar com o outro por sei lá; para ver quem vai cuidar da mãe doente. Chorei pelos amigos que deixaram de ser amigos por motivo algum.
É um tempo de guerra e paz. Estamos em tempos de urano e netuno. Estamos em tempos de sermos responsáveis.
A roupa está suja e o meu amor vai chegar em breve. Meu laboratório particular. Eu quero que seja fácil, às vezes é difícil. Mas ninguém nunca vai poder dizer que somos desistentes.